Enfrentar sozinho um transtorno mental é difícil porque, via de regra, os transtornos mentais são autoperpetuantes. A Depressão, por exemplo, tem como uma de suas principais características o retraimento – a pessoa com depressão deixa de se envolver em atividades com as quais se envolvia anteriormente –, e, este retraimento, tem como efeito a piora do quadro depressivo. Os transtornos de ansiedade têm como uma das principais características a evitação – a pessoa ansiosa tende a evitar a situação que desencadeia a ansiedade –, e, esta evitação, leva à piora da ansiedade. Os outros transtornos funcionam de maneira bastante semelhante: a resposta que normalmente somos capazes de dar a eles conduz à piora da situação.

Isso não ocorre com as doenças físicas. Quando uma pessoa tem uma infecção, o corpo reage produzindo anticorpos. Quando uma pessoa sofre uma lesão, o corpo reage com a dor que motiva a busca de ajuda e, em muitos casos, o próprio organismo se regenera.

Além disso, os transtornos mentais geralmente possuem muitas causas. A maioria deles se desenvolve como resultado de complexas combinações de variáveis de ordem genética (propensão a determinados transtornos, temperamento, vulnerabilidade a tipos específicos de estímulos, etc.), individuais (condições biológicas individuais, experiências pessoais de vida, estrutura corporal, estilo individual de vida, etc.) e culturais (crenças, valores, tradições e costumes, etc.). Assim, é pouco provável que uma pessoa desenvolva Depressão como resultado do término de um relacionamento (uma única causa), por exemplo. Ainda que a situação possa precipitar o problema, isso só ocorre porque a pessoa já possui outras experiências ou características individuais que a tornaram vulnerável.

Alguns poucos transtornos mentais podem ter suas causas mais bem localizadas temporalmente. Exemplos disso são o TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) e algumas Fobias Específicas (de carro, de avião, de cachorro, etc.), que em uma parcela dos casos, surgem após o emparelhamento entre a situação traumática (no caso do TEPT) ou o objeto fóbico (no caso da fobia) a alguma experiência intensamente dolorosa. Ainda assim, algumas pessoas passam por esse tipo de experiência e não desenvolvem o transtorno. Alguém com bom suporte social e com um repertório rico em habilidades de regulação emocional menos provavelmente desenvolveria TEPT se comparada a outra pessoa sem estas características.

Com uma variedade tão grande de causas, faz sentido esperar que intervenções em apenas uma ou outra das condições que contribuem para o problema tenha efeitos tão tímidos ou temporários. As outras variáveis continuam atuando sobre o comportamento, mesmo que de maneira menos perceptível. A pessoa com fobia de avião, por exemplo, pode continuar evitando voar mesmo após receber infinitas informações sobre o quanto voar é seguro (ainda que a psicoeducação seja útil para o tratamento da fobia de avião). A pessoa com TEPT pode continuar experimentando respostas intensas de estresse mesmo após saber que seu abusador foi preso, ou ainda, mesmo após se tornar capaz de se defender de um possível abusador. As condições que mantém o problema podem envolver combinações tão complexas de variáveis que não é estranho, mesmo profissionais bastante qualificados, enfrentarem dificuldades.