Autora: Francine Porfirio Ortiz Oleniki 
Sem muito esforço, é possível encontrar na sociedade diferentes expressões da violência que atingem de maneira direta e indireta a vida das pessoas. Uma destas expressões, recente e felizmente popularizada pela mídia, é o Bullying. Este fenômeno crescente em diferentes contextos trouxe a necessidade de reflexões e medidas de intervenção importantes, especialmente, para a educação escolar e familiar. 
O Bullying se caracteriza pela violência, psicológica ou física, dirigida a uma pessoa ou grupo com periodicidade. Ocorre entre pares, com igual nível hierárquico, mas que diferem em poder na situação. Muito embora seja um fenômeno amplamente comentado na mídia, o Bullying sempre existiu, porém com as inovações tecnológicas que reduziram os limites entre os contextos escolares, profissionais, familiares e comunitários, passou a se tornar mais influente e ameaçador. Isto porque o Bullying pode alcançar a vítima também em outros contextos de interação, encontrando por exemplo sua extensão no Cyberbullying, que acontece nas redes sociais, mensagens de texto em celulares, postagens em blogs pessoais e outros recursos virtuais que dão a esta violência um caráter sistêmico. 
É importante considerar que o Bullying pode começar com atos agressivos não intencionais, tornando-se frequentes conforme a reação da(s) vítima(s) ou do público espectador que os reforça. Por exemplo, se durante a aula de Educação Física uma criança com dificuldades nos esportes cometer um erro e for apelidada pejorativamente apenas por diversão, sua reação de desagrado (passiva ou assertiva) e a do público espectador (conivente ou interventiva) determinará se o apelido permanecerá em outros contextos. Assim, ainda que esta criança seja exemplar em quaisquer outras atividades, pode passar a ser reconhecida somente pelo apelido que representa seu fracasso. Nota-se, então, que o Bullying pode ter sua origem em uma situação específica, de agressão não intencional, a partir da conduta de seus envolvidos. Especialmente no contexto escolar, se intervenções não forem realizadas, o Bullying pode se tornar inevitável. 
Longe dos muros da escola, um jovem que sofre intimidações pode escolher trocar de grupo ou companhia, mas na sala de aula é obrigado a conviver com os mesmos companheiros por todo seu percurso escolar. (Constantini, 2004, p. 74) 
Por este motivo é importante refletir estratégias preventivas e corretivas do Bullying a partir de uma leitura multicausal, analisando não apenas a díade agressor(es) e vítima(s), mas a influência dos espectadores, da comunidade, da família e dos atores escolares neste fenômeno. 
Educação para a prevenção 
A prática do Bullying está diretamente relacionada ao desenvolvimento moral. Isso porque envolve prioritariamente a agressão à dignidade do outro, com escasso vínculo empático, respeito ou senso de cidadania. Deste modo, promover o desenvolvimento moral é fator de prevenção para o Bullying, sendo função das instituições educativas – especialmente familiar e escolar – oferecer condições para que este processo se concretize. 
Desenvolver a moralidade implica em ensinar comportamentos pró-sociais e colaborativos, capazes de superar preconceitos e consolidar uma alteridade positiva, ou seja, o reconhecimento do outro enquanto diferente, com o qual se pode coexistir e conviver ainda que algumas vezes provoque desconforto. Comportamentos pró-sociais são ensinados ao desenvolver habilidades que ampliam a possibilidade de um desempenho social competente, tais como empatia, assertividade e resolução de conflitos. Ao problematizar situações que envolvam a competência social do indivíduo, permite-se ampliar sua leitura da realidade e educar para uma conduta que valorize a si próprio e ao outro. Ainda, os comportamentos pró-sociais são ensinados por meio de práticas educativas positivas, tais como a preocupação dos educadores (familiares e professores) em oferecer modelo moral e o estabelecimento adequado de regras (consistentes e coerentes à realidade). 
A educação é fator preventivo ao Bullying, portanto, quando oferece ao sujeito a possibilidade de aprender comportamentos de autoproteção ao lidar com situações-problema. É importante que a criança, o adolescente ou adulto aprenda a responder de maneira assertiva ao se sentir ofendido, evitando que o Bullying seja estabelecido. Ainda, é importante que sua rede de apoio (educadores e amigos próximos) seja participativa e intervenha na ocasião da agressão verbal ou física em favor da vítima, superando a omissão tão prejudicial à situação do Bullying. Para esta participação convém investir na formação dos profissionais que atuam no contexto escolar e das famílias, visando oferecer informação sobre o Bullying e, principalmente, suporte para as ações educativas de caráter preventivo e corretivo. 
Intervenção para a correção 
Ao realizar quaisquer estratégias corretivas em relação ao Bullying é importante considerar todas as pessoas envolvidas na situação, desde o agressor e a vítima até os espectadores e os educadores (professores e famílias). Isto porque, para a dignidade da vítima, a conivência e omissão de sua rede de apoio é tão prejudicial quanto o próprio Bullying. Sente-se não apenas a humilhação e impotência que o Bullying provoca, mas também o desamparo que a ausência de apoio traz. 
A começar pela vítima, é importante avaliar o grau de comprometimento biopsicossocial que o Bullying causou. Se sofreu humilhações públicas e/ou agressões físicas, é provável que esteja também isolada socialmente, visto que os amigos e colegas podem se afastar com o receio de se tornarem a próxima vítima. Tem-se, então, uma problemática relacional no grupo. 
Para uma eficiente intervenção corretiva, é preciso avaliar também a história de aprendizagem do agressor e os possíveis benefícios adquiridos com o Bullying. Considerando-se que a violência é comumente intergeracional, é válido investigar se o agressor sofreu ou sofre violência verbal ou física que reforce seu comportamento violento. Se porventura seus familiares pouco exercitarem o diálogo para a resolução de conflitos, estabelecerem regras inconsistentes (geralmente pautadas unicamente em sua autoridade e humor), relacionarem-se de modo não-colaborativo e não oferecerem modelo moral de conduta, é compreensível e provável que o agressor apresente déficit na aprendizagem de comportamentos pró-sociais. Considera-se, portanto, que a sensibilidade destinada à vítima de Bullying deve ser a mesma destinada ao agressor para que a intervenção planejada permita alcançar os déficits e excessos comportamentais de ambos. 
Em relação aos espectadores, tanto colegas e amigos que testemunham o Bullying na ocasião em que ocorre, quanto os educadores (professores e famílias) que observam sinais e sintomas provocados por esta agressão, precisam ser incluídos na intervenção. A opinião dos espectadores sobre o agressor e a vítima podem também auxiliar no momento do planejamento da intervenção. 
…os espectadores podem observar o agressor (ou grupo de agressores) como uma figura forte que raramente é punido (tanto por profissionais quanto pelos alunos) quando pratica os maus-tratos com os colegas, discriminando uma maneira não-habilidosa de se obter ganhos através da subjugação do outro ao seu poder. (Cunha, 2009) 
Na intervenção corretiva pode-se realizar primeiramente um mapeamento do nível de entendimento das pessoas envolvidas sobre o Bullying. A partir disso, desenvolver estratégias para a problematização do tema que garanta sua participação coletiva, sem com isso expor publicamente a díade agressor-vítima, oferecendo condições para a sensibilização necessária ao desenvolvimento moral e à aprendizagem de comportamentos pró-sociais. 
Contribui elaborar projetos interdisciplinares nos quais o Bullying seja abordado não apenas de modo informacional, mas especialmente afetivo-relacional, com metodologias que valorizem a participação de cada pessoa envolvida. Em sintonia, é importante às famílias assumirem corresponsabilidade na educação de comportamentos pró-sociais, colaborando na problematização do tema e acompanhando as iniciativas escolares. 
A partir destas premissas, nota-se que o Bullying é um ato de violência multicausal, capaz de ser evitado a partir de uma educação centrada também no desenvolvimento moral e na aprendizagem de comportamentos de autoproteção. Ao problematizá-lo no contexto familiar ou escolar, é relevante não fazê-lo somente de modo informacional, mas especialmente afetivo-relacional. Ou seja, valorizando as expressões de sentimentos e opiniões acerca do tema, oferecendo orientação e possibilitando às pessoas envolvidas o reconhecimento do valor e papel de cada uma na situação de Bullying. 
Lidar com o Bullying implica em adotar um olhar sensível à díade agressor-vítima, acompanhar de maneira atenta sua ocorrência e adotar como princípio que a intervenção precoce em uma agressão – ainda que não intencional – permite prevenir o possível estabelecimento desta violência, contribuindo para relações interpessoais pautadas em uma Cultura de Paz. 
Referências 
Constantini, A. (2004) Bullying, como combatê-lo?: prevenir e enfrentar a violência entre jovens. São Paulo: Itália Nova Editora. 
Cunha, J. M. (2009) Violência interpessoal em escolas no Brasil: características e correlatos. Dissertação de mestrado não publicada, Universidade Federal do Paraná – UFPR, Curitiba, PR. 
Wendt, G. W.; Campos, D. M. de; Lisboa, C. S. de M. (2010) Agressão entre pares e vitimização no contexto escolar: bullying, cyberbullying e os desafios para a educação contemporânea. Cad. psicopedag., São Paulo, v. 8, n. 14.