Esequias Caetano
Psicólogo Clínico e Organizacional
ecaetano@institutocrescer.com
Frequentemente recebemos dúvidas sobre Autismo por e-mail, enviadas tanto por pais de crianças diagnosticadas quanto por estudantes e profissionais de Psicologia interessados no assunto. Neste artigo reuni algumas das perguntas mais frequentes para comentá-las com base na literatura da área e tentar auxiliar na compreensão deste transtorno, considerado por muitos, um dos mais misteriosos e complexos problemas psicológicos. 
Como minha formação e atuação são exclusivamente dedicadas ao atendimento de adolescentes e adultos com desenvolvimento típico, precisei recorrer a terapeutas infantis que trabalham com autismo para chegar à literatura especializada, reunir as informações que apresento abaixo e garantir a coerência do artigo com os achados científicos sobre o tema. 
O que é o autismo? 
De acordo com a CID 10 (Classificação Internacional de Doenças), editada pela Organização Mundial da Saúde, o Autismo é caracterizado por “anormalidades qualitativas em interações sociais recíprocas e em padrões de comunicação e por um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo” (p.246). Agrupado em F84 – Transtornos Invasivos do Desenvolvimento, inclui Autismo Infantil, Autismo Atípico, Síndrome de Rett, Outro Transtorno Desintegrativo da Infância e Síndrome de Asperger. Ainda de acordo com a Classificação, os primeiros sinais aparecem no início da infância e podem ou não estar associados a algum nível de comprometimento cognitivo. 
O livro Ensinando Indivíduos com Atraso no Desenvolvimento: Técnicas Básicas de Intervenção, organizado por Ivar O. Lovaas (2003) e lançado pela editora pro-ed, detalha um pouco mais a apresentação clínica do transtorno. De acordo com o material, indivíduos com autismo apresentam déficits na linguagem, na atenção, na expressão emocional, no uso adequado de brinquedos, nas habilidades de interação social, habilidades de autocuidado, aprendizagem por imitação e desenvolvimento cognitivo. O livro destaca ainda excessos na expressão de raiva (auto ou hetero agressão) e adoção de comportamentos ritualísticos. 
Até o momento o diagnóstico só pode ser fechado através da observação do comportamento da criança. Embora já existam estudos apontando a possibilidade de exames laboratoriais auxiliarem na detecção (link), eles não são  aceitos universalmente, explica Celso Goyos, Doutor em Psicologia pela USP e coordenador da Especialização em Autismo da UFSCar
O que causa o autismo?
Ainda não há consenso sobre o que pode causar o transtorno, embora existam diversas teorias a respeito. Caballo e Simón (2010) citam algumas das principais  no Manual de Psicologia Clínica Infantil e do Adolescente, lançado no Brasil pela Ed. Santos. São elas:
Pais Causadores

A teoria foi proposta por Kanner (1949), Eisenberg (1957) e Bettelheim (1967), mas já descartada pela comunidade científica. Ela postulava que os pais das crianças autistas eram pessoas frias, distantes, um tanto obsessivas, perfeccionistas e com alguma tendência à solidão, o que provocaria um desenvolvimento psíquico anormal.

Essa teoria trouxe graves problemas ao tratamento de crianças autistas, os quais comento no texto Autismo – Um Breve Histórico, disponível no site Comporte-se: Psicologia Científica (link). 

– Alterações Cerebrais. 
Alguns dos principais autores citados no livro que trabalham com hipóteses de alterações cerebrais são Rutter (1977), que relaciona o autismo a uma lesão cerebral mínima; Lotter (1974), que hipotetiza uma relação do transtorno com a Esclerose Tuberosa; Hermelim e O’Connor (1970) e Ornitz (1973), que atribuem a alterações no sistema vestibular. 
– Alterações Biológicas
Polaino (1982) propôs, com base em uma revisão bibliográfica realizada por outro autor, que entre as causas do autismo estão problemas metabólicos, infecciosos ou genéticos. 
Caballo (2010) cita ainda Ritvo e Freeman (1984), que propõe que o autismo esteja associado a vários fatores etiológicos diferentes. De acordo com os autores, cada um destes fatores pode estar associado a uma das variadas formas com que o transtorno se apresenta.

O autismo tem cura?
Não. Na realidade, não é possível falar de cura para o autismo, por dois motivos:

1) Aparentemente não há nenhum método de tratamento capaz de gerar remissão completa dos sintomas do autismo ou levar todos os indivíduos diagnosticados a saírem do diagnóstico, conforme demonstrado pelos dados apresentados abaixo. 

2) Mesmo que houvesse um método capaz deste feito, do ponto de vista científico, isso não poderia ser considerado cura. Conforme explica Ivar O. Lovaas (2003),  “uma cura teria que corrigir a causa raiz do problema” (p.20), e como atualmente não há consenso sobre o que pode ser esta “causa raiz” (Caballo e Simón, 2010), não há como desenvolver estratégias para corrigi-la.

Até que ponto é possível chegar com o tratamento?
O livro Ajude-nos a Aprender, de Kathy Lear, traduzido por uma equipe coordenada por Margarida Hofmann Windholz (2006), apresenta alguns dados interessantes sobre a efetividade do Método ABA, considerado a mais efetiva forma de tratamento do autismo: 
– Lovaas (1987) tratou 19 crianças pequenas diagnosticadas com Autismo e observou que 47% delas atingiram funcionamento intelectual e escolar normais, com QI dentro da faixa do normal. No grupo controle (que não recebeu tratamento ABA), apenas 2% atingiram o mesmo nível de desenvolvimento. 
– John McEachin (1993) verificou que os indivíduos tratados por Lovaas (citado acima) mantiveram seus ganhos após 6 anos de encerrado o tratamento. Com isso, concluiu que os ganhos obtidos pelo tratamento ABA podem ser duradouros. 
– J. S. Birnbrauer e Cols replicaram a pesquisa de Lovaas (acima citada), testando o mesmo procedimento com um novo grupo de crianças autistas. Das 9 crianças submetidas ao tratamento ABA, 4 (44%) estavam se aproximando dos níveis normais de funcionamento, enquanto apenas 1 (20%) daquelas que não recebeu o mesmo tratamento obteve resultados semelhantes.
– Sandra L. Harris e Cols (1994) revisou 10 programas de inclusão pré-escolar desenvolvidos através do Método ABA e verificaram que 50% das crianças que participaram dos programas foram integradas com sucesso em salas de aula regulares. 
– Stephen R. Anderson e Cols (1987) avaliaram a intervenção ABA realizada na casa das crianças com o diagnóstico de autismo. De acordo com os autores, a maioria delas apresentou ganhos significativos nos campos da linguagem, cuidados pessoais, habilidades sociais e acadêmicas.
Robson Brino Faggiani, em seu artigo Terapia ABA (link), publicado no site Psicologia e Ciência, cita diversos outros estudos realizados entre 2005 e 2009 avaliando a efetividade do tratamento ABA. Em todos eles, a quantidade de crianças que atingiu níveis de funcionamento normais ficou em torno de 50%, e mesmo aquelas que não atingiram, obtiveram ganhos significativos nas habilidades de comunicação, contato social e autocuidado. O grande problema, porém, é que estes resultados foram alcançados em condições ideais de tratamento, bastante difíceis de se ofertar em uma clínica de psicologia como as que temos aqui no Brasil. Que condições são estas? 
Robson explica que a aplicação do Método ABA requer pelo menos 40 horas semanais de terapia (oito horas por dia, de segunda a sexta), rodízio de terapeutas, início precoce do tratamento (até cinco anos de idade) e proporção terapeuta-cliente de 1 para 1 – o que, no Brasil, parece inviável. Nos Estados Unidos esse tratamento é pago pelo governo e, em nosso país, teria que ser pago pelos pais. 
Questionada sobre o assunto, a Psicóloga do Instituto Crescer Hélida Reis afirma que além da dificuldade em se alcançar as condições ideais de tratamento ofertadas aos participantes dos estudos, é preciso observar também o nível de comprometimento da criança. Em casos de autismo leve, os ganhos podem ser bastante evidentes, mas em casos moderados e graves, geralmente são mais discretos e restritos, explica. 
Diante disso tudo, o que podemos concluir?
Quando considerados em conjunto, estes fatores – especificidade do tratamento ideal/necessário e nível de comprometimento da criança – tornam a intervenção com crianças autistas difícil mesmo para profissionais com formação e experiência na área e ainda mais para outros profissionais. Atender este público requer habilidades bastante particulares e, pessoalmente, considero uma atitude irresponsável se arriscar a começar sem um amplo conhecimento da literatura especializada e um supervisor com experiência comprovada. Aos pais, recomendo que ao buscar um tratamento para o filho verifiquem se o profissional atende a estes pré-requisitos.

É preciso saber que aquilo que é chamado pela literatura especializada de “sair do diagnóstico” e “atingir níveis normais de funcionamento” foi obtido em condições ideais de tratamento e por aproximadamente 50% dos casos. Ao contrário do que podem pensar profissionais inexperientes ou pais ansiosos por ver o filho superar suas dificuldades ao lerem ou ouvirem as expressões, elas não devem ser vistas como cura para o autismo, mas sim, desenvolvimento de áreas específicas: habilidades acadêmicas, habilidades de comunicação, habilidades de autocuidado, habilidades sociais, cognitivas e outras, de forma à criança não mais atender aos critérios diagnósticos para autismo ou se integrar com sucesso à sociedade. Retomando o que diz Ivar O. Lovaas, para que pudéssemos falar em cura seria necessário “corrigir a causa raiz do problema” e isso ainda não é possível. 

Quatro Informações Importantes sobre o Autismo