Esequias Caetano – CRP 04/35023
Especialista em Psicologia Clínica
ecaetano@institutocrescer.com
Pode parecer estranho, à princípio, comparar o assassinato de uma senhora de 85 anos ao de um Pastor Alemão. No primeiro caso, falamos de uma pessoa. No segundo, de um animal. Muito diferente? Na verdade, não, pois em ambos falamos de mortes causadas pela agressão de alguém que deveria, pelo menos na teoria, cuidar dos envolvidos. 
Dona Severina Tolentino Pacau* foi assassinada por sua própria filha, Eva Maria Tomaz Pacau, em 19 de novembro deste ano. A autora do crime era sua cuidadora já há alguns meses. Naquele dia, quis sair de casa, a mãe pediu que ficasse, a reação foi imediata: a empurrou para o chão e desferiu um golpe com martelo em sua cabeça. O crime chocou a todos. Tanto no facebook quanto nos noticiários, tudo o que se via era comentários de indignação pelo ocorrido.
Dona Severina Tolentino Pacau.
O Pastor Alemão*, por sua vez, foi assassinado em 30 de novembro por seu próprio dono, Joaquim Luiz Gontijo. De acordo com vizinhos, Joaquim é usuário de drogas e quando está sóbrio trata bem o animal, mas, sob efeito dos entorpecentes, torna-se bastante agressivo. Naquele dia, bateu no cão até levá-lo à morte. Novamente, o ocorrido causou gerou espanto em todos. 
Pastor Alemão assassinado por seu dono.
Tanto no caso da Dona Severina quanto no caso do Pastor Alemão a morte foi provocada pelo comportamento violento de um responsável. Ambos eram frequentemente agredidos. Existia um histórico de maus tratos que confirma o que há muito tempo a literatura especializada tem apontado: o ciclo da violência é progressivo e crescente.  Mas o que isso significa? 
Significa que as agressões começam pequenas, geralmente com palavras discretamente ofensivas. Com o tempo o grau de agressividade das palavras usadas aumenta, até que se inicia a escalada da violência física. Geralmente um empurrão, um tapa, soco ou chute que parecem acidentais, vão se repetindo de forma cada vez mais violenta. Com o tempo, objetos começam a ser usados. Cadeiras, martelos, pedaços de pau, ferramentas, facas ou até armas de fogo – se a vítima ainda estiver viva. 
O interpretação comum de quem sofre a violência, ou de quem é testemunha, é de que vai passar e tudo voltará ao normal. Estas pessoas não percebem, no entanto, que a violência já assumiu status de normal na relação – “normal” no sentido de cotidiana, comum, previsível.  Aqueles que percebem isso, agora falando das vítimas, veem-se presos por uma insegurança monstruosa de não conseguirem sobreviver sozinhos. Sentem-se incapazes, mas esse sentimento de incapacidade geralmente está mais associado à dificuldade de fazer o outro parar do que de seguir a própria vida, ainda que as duas coisas se confundam. E geralmente se confundem. É como se a única opção para fosse permanecer ao lado do agressor, ainda que isso não seja verdade. As testemunhas, por sua vez, temem fazer algo e piorar as coisas. Piorar também é, aliás, outro medo do qual as vítimas compartilham. Será que ele, o agressor, ficará ainda mais violento se algo for feito?
Com o tempo que se perde nestes devaneios a vida se vai. Literalmente. Não falo apenas da vida biológica, aquela em que o coração deixa de bater. Falo também de quem continua com o corpo funcionando, mas tudo o que tem dentro de si é sofrimento, medo, angústia, pavor e dor a ponto de não conseguir sequer pensar em ter paz. É nessas horas que muita gente desiste de permitir que o corpo continue em funcionamento. Ou desiste de tentar mudar a situação. E as testemunhas, imóveis, ainda se surpreendem quando a morte clínica é decretada pelo médico. 
A violência não deve ser combatida apenas após chegar a seus extremos. Pode ser tarde demais. Ou o mal é cortado pela raiz, ou corremos o risco de novas vidas – de pessoas e animais – serem perdidas, tanto no sentido biológico, quanto no sentido funcional. As vítimas raramente tem forças para reagir. As testemunhas, estas sim, devem ajudar para evitar que o pior aconteça. Não adianta esperar o óbvio acontecer para se surpreender com isso. 
O que assusta é que este mesmo roteiro é comum não só para Dona Severina e o Pastor Alemão, mas para a maioria das vítimas de violência. O ciclo de agressões, se não for interrompido, cresce. Isso é inevitável. Cortar pela raiz é a única forma de prevenir o pior. Jamais se cale diante da violência.

*Todas as informações citadas no texto são de livre acesso e estão disponíveis nos jornais de Patos de Minas e região. 

O que os assassinatos da Dona Severina e do Pastor Alemão tem em comum?