Autor: Robson Brino Faggiani

O autismo é o mais conhecido dentre os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. É caracterizado por déficits na interação social e na comunicação, repertório restrito de interesses e de atividades, necessidade de rotina e padrões repetitivos de comportamento. Esse conjunto de características pode ser observado nos indivíduos desde o seu nascimento ou, em alguns casos, começar a se manifestar em qualquer momento até os três anos de idade. Embora haja concordância entre a comunidade científica de que o autismo possui origem neurobiológica, ainda não estão claras as causas do transtorno. Estudos epidemiológicos atuais indicam que há um indivíduo autista para cada 110 pessoas. Recentemente, dados mais alarmantes sugerem que a cada 50 novos nascimentos, um bebê é autista. O transtorno é quatro vezes mais comum em homens do que em mulheres, mas as mulheres têm mais probabilidade de possuírem retardo mental associado.

Não existem explicações comportamentais consensuais para a origem do problema; alguns pesquisadores sugeriram que a maioria dos comportamentos típicos do autismo deriva de uma sensibilidade menor a reforçadores mediados socialmente junto a uma possível sensibilidade maior a reforçadores produzidos por auto-estimulação. Essa hipótese motivacional permite explicar não apenas a alta frequência de comportamentos repetitivos, mas também os déficits em interação social e desenvolvimento da linguagem. No entanto, não contempla adequadamente o retardo mental frequentemente associado ao transtorno.

Dentre as terapias disponíveis para tratar o autismo, o Ensino Baseado em Análise do Comportamento Aplicada (ou Terapia ABA) apresenta os resultados mais promissores. Lovaas, em 1987, mostrou que 47% das crianças que realizaram Terapia ABA por 40 horas semanais durante dois anos deixaram de apresentar os comportamentos típicos do autismo, enquanto apenas 2% das crianças que não realizaram a terapia obtiveram ganhos semelhantes. Howard e colaboradores, em 2005, compararam a efetividade de um tratamento ABA intensivo (cerca de 30 horas por semana) com um tratamento eclético intensivo (30 horas por semana), composto por outras terapias comportamentais e sensoriais. Ambos os tipos de tratamento foram executados por 14 meses. O grupo de participantes tratado com ABA mostrou melhores resultados em tarefas cognitivas, sociais e de linguagem em comparação ao grupo que recebeu tratamento eclético.

A Terapia ABA é embasada pela análise do comportamento aplicada (Applied Behavior Analysis), uma ciência e tecnologia cujo objetivo final é compreender o comportamento e, a partir disso, criar estratégias socialmente valorizadas para melhorar a qualidade de vida humana. A Terapia ABA para o autismo, mais especificamente, envolve a família e profissionais que convivem com indivíduos autistas na criação de condições especiais de aprendizagem que favorecem o desenvolvimento cognitivo, social, da linguagem e da independência funcional. Além disso, possui um conjunto de procedimentos investigativos e práticos para lidar com a ocorrência de comportamentos problemáticos, reduzindo sua frequência ou os substituindo por comportamentos apropriados.

Os resultados positivos obtidos pela Terapia ABA estão ligados a alguns dos seus princípios e procedimentos. Uma primeira característica importante é o fato de os procedimentos de ensino serem derivados de pesquisas científicas: todas as atividades propostas pelos terapeutas ABA foram investigadas e provadas funcionais antes de serem aplicadas nos estudantes. A essa característica soma-se a cuidadosa avaliação realizada no indivíduo que passará pela Terapia; isso permite a elaboração e planejamento de atividades mais efetivas por serem específicas para cada estudante. A avaliação ocorre no início da Terapia, mas é realizada continuamente durante todo o processo terapêutico, possibilitando que os pontos positivos do tratamento sejam identificados; mais importante, o registro constante possibilita que elementos problemáticos ou não efetivos do processo terapêutico sejam imediatamente reconhecidos e alterados por estratégias mais eficientes.

Parte da funcionalidade da Terapia ABA pode ser atribuída às estratégias utilizadas pelos profissionais para garantir que seus estudantes estejam constantemente motivados ao trabalho; para isso, não apenas testes de preferências são frequentemente realizados, como estratégias que ajudam a evitar erros são empregadas. Outro aspecto importante da Terapia ABA é o respeito ao ritmo individual do estudante combinado com a exigência de domínio do conteúdo para que o programa de ensino evolua; esse princípio garante que o estudante aprenda de forma gradual e que esteja pronto para as mudanças de conteúdo quando elas ocorrerem. Junto a essas características, os terapeutas ABA acreditam que falhas ou atrasados no ensino ocorrem devido ao seu próprio trabalho e não a características negativas ou dificuldades do estudante. Essa filosofia que pode ser resumida em “o estudante sempre tem razão” motiva o profissional ABA a incessantemente procurar alternativas mais efetivas para ensinar seus alunos. É uma filosofia otimista e inclusiva que traz benefícios tanto ao estudante quanto ao professor, pois o primeiro recebe ensino de qualidade e o segundo é obrigado a aprender e a reavaliar a si mesmo continuamente.

As estratégias de ensino mais comumente utilizadas pelos terapeutas ABA são o encadeamento de trás para frente, a tentativa discreta e o ensino em ambiente natural. O encadeamento de trás para frente é utilizado para ensinar tarefas de independência funcional, como tomar banho, trocar de roupa, etc. Consiste em dividir a atividade em passos e ensiná-los do último para o primeiro: todos os passos são realizados em sequência com ajuda do terapeuta, mas a ajuda é retirada primeiramente do último passo, em seguida do penúltimo e assim por diante. A lógica por trás disso é que os passos iniciais servem como dica para os passos subsequentes. Apesar da funcionalidade da estratégia, alguns estudantes respondem melhor ao ensino gradativo do primeiro para o último passo.

A tentativa discreta é o tipo de ensino mais popular e mais utilizado na Terapia ABA. É um tipo de ensino diretivo e estruturado, por meio do qual podem ser ensinadas linguagem, compreensão de linguagem, interação social, leitura e tarefas cognitivas em geral. Cada tentativa discreta é uma unidade de ensino composta por três partes principais: o estímulo antecedente ou instrução, a resposta do estudante e a consequência à resposta. No contexto das tentativas discretas, o estímulo antecedente é constituído pela apresentação de material de ensino (o que se deseja ensinar) e a instrução do terapeuta. A resposta do estudante pode ser verbal ou não-verbal, dependendo do objetivo de ensino. Após a emissão da resposta correta, o terapeuta imediatamente permite ao estudante acessar um item ou faz uma brincadeira do seu interesse. As tentativas discretas ocorrem de forma rápida (cerca de 3 a 12 tentativas por minuto), resultando em muitas oportunidades de ensino em um período curto de tempo. A popularidade da tentativa discreta se deve em grande parte à sua efetividade; ela é igualmente útil para ensinar estudantes com alto ou baixo funcionamento. Sua organização permite tanto o ensino de conhecimento complexo e refinado quanto de tarefas mais simples, caso no qual o conhecimento vai sendo construído passo a passo, de acordo com o ritmo do estudante.

Por fim, o ensino em ambiente natural consiste em transformar as atividades cotidianas do estudante em oportunidades para a aprendizagem. Por exemplo, aproveitar a hora do almoço para ensinar o nome dos diferentes alimentos, arrumar a mesa, comer sem ajuda, etc. Ensino em ambiente natural também se refere à educação por meio de atividades lúdicas, particularmente por meio das brincadeiras e preferências do estudante. Durante as brincadeiras, é possível aproveitar a alta motivação do estudante para ensinar qualquer habilidade, mas mais comumente o ensino em ambiente natural foca no desenvolvimento de linguagem e comportamentos de interação social. Infelizmente, esse tipo de ensino lúdico em geral não é associado à Terapia ABA, provavelmente devido à popularidade da tentativa discreta. Uma boa programação de educação baseada em análise do comportamento aplicada deve contemplar os três tipos de ensino descritos acima. O peso que cada modelo de trabalho terá depende das habilidades do estudante e de suas necessidades imediatas.

Os princípios e as estratégias de ensino da Terapia ABA fazem dela uma alternativa viável e efetiva para o tratamento dos indivíduos autistas. No entanto, para que todo o potencial da terapia seja aproveitado, algumas condições são necessárias. É fundamental que a terapia seja intensiva e iniciada o quanto antes; as pesquisas apontam que a terapia é mais efetiva quando realizada 40 por semana (contando a escola como 20 horas) e que quanto mais jovem o estudante melhor seu prognóstico. Sendo que a terapia envolve mudanças amplas nos ambiente escolar e familiar dos estudantes, sua efetividade é ampliada quando professores, cuidadores e principalmente pais participam das decisões e contribuem na realização dos procedimentos de ensino ABA. O beneficiário principal da integração e amor da equipe pelo trabalho é o estudante com autismo. A felicidade, o bem-estar, a inclusão, a independência e o aprendizado constante do estudante são a motivação e o objetivo final dos terapeutas ABA.

O que é Terapia ABA? Conheça o mais efetivo tratamento para autismo.