Hoje temos como objetivo esclarecer algumas dúvidas sobre educação especial e inserção de pessoas com dificuldades intelectuais na sociedade. Para isso, a Psicóloga Hélida Luanna Reis, que é graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco e que realizou pesquisas e fez seu trabalho de conclusão de curso na área de Educação Especial, nos responderá algumas perguntas.

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● Hélida, sabemos que existem muitas pessoas com dificuldades intelectuais inseridas na sociedade sem nenhum tipo de acompanhamento psicológico ou de outros profissionais da saúde. Algumas vezes essas pessoas se relacionam, constituem família e depois passam por dificuldades por não conseguirem lidar com os filhos ou com outros conflitos. De quem é a responsabilidade por essas pessoas?

Resposta: O zelo pela educação e a saúde de um filho constituem-se um dever legal dos pais/ responsáveis e do Estado, conforme a Constituição Federal. Cuidar e educar uma criança são tarefas com relativo grau de complexidade e que requerem dos cuidadores o exercício de algumas habilidades, independente dos mesmos terem ou não deficiências. Existem alguns tipos de deficiências que não são “barreiras impeditivas” para que uma pessoa exerça o seu direito de ter filhos e cumpra o seu dever de cuidar dos mesmos, a depender do contexto em que essa pessoa viva e da rede de apoio de ela possua. Por exemplo, não é incomum vermos pessoas com deficiência física, auditiva e até visual cuidarem de seus filhos. É importante pontuar que nesses casos o suporte familiar e comunitário poderão contribuir muito para facilitar as atividades de rotina delas. Existe outro grupo de deficiências que, devido ao grau de acometimento e de barreiras que geram na vida da pessoa afetada, podem levar seus portadores a serem judicialmente considerados“incapazes” para exercerem algumas atividades que requerem certo nível de elaboração cognitiva. Nesses casos, quando nos referirmos, por exemplo, a casos de paralisia cerebral, autismos severos, deficiência intelectual moderada/severa, esquizofrenia grave, dentre outros quadros que comprometem muito a capacidade do indivíduo de cuidar até de si próprio, acredito que não deva ser recomendado a essa pessoa ter filhos, pois as suas habilidades de cuidado, tanto de si como do outro, estão potencialmente comprometidas. Já o exercício do direito de ter relações afetivas e sexuais seguras, tomando-se os devidos cuidados de prevenção de DST’s e de gravidez indesejada, deve ser discutido sim. Estamos falando dos direitos sexuais e reprodutivos inerentes a condição do ser humano. Sabemos que a sexualidade das pessoas com deficiência, assim como a de outros grupos, ainda tem pouco espaço na discussão acadêmica e social. É uma proposta desafiadora e ouso lembrar que pessoas com deficiência não são seres assexuados. O desafio está em como a família, a escola, os profissionais de saúde e a comunidade podem dialogar para discutir sobre isso.

● Embora tenham dificuldades intelectuais, essas pessoas se desenvolvem e têm desejos, vontades e ideias. O que fazer quando o deficiente intelectual se impõe contra a intervenção dos responsáveis?

Resposta: A deficiência, qualquer que seja ela, não tira o indivíduo da sua condição humana. Sim, possuem muitos desejos, vontades e ideias. Claro que toda resposta deve ser dada considerando-se um contexto, mas em linhas gerais, eu diria que precisamos fazer as seguintes perguntas ao olhar para a situação: Quais regras/limites estão sendo colocados para essa pessoa? De que forma isso está sendo ensinado? Estão sendo considerados seus direitos e necessidades? A pessoa é valorizada quando está se comportando de maneira adequada ou é vista apenas quando se comporta de forma opositiva? Quais tipos de estratégias de ensino podem ser utilizadas para ajudar a pessoa com deficiência a seguir a rotina escolar ou da família? Para todo controle, deverá existir uma forma de contra-controle. Penso que essa dificuldade possa estar também no campo das habilidades sociais educativas dos cuidadores, que muitas vezes não sabem como construir um tipo de interação harmoniosa com o outro. Precisamos também levar em consideração o fato de que alguns tipos de deficiência trazem determinadas singularidades para a vida da pessoa e que precisam ser consideradas, como por exemplo, a agitação psicomotora. Esse é um sintoma clássico que entra em conflito com os modelos educativos que preconizam que o aluno só aprende sentado e ouvindo o que o professor tem a dizer. Existem muitas e muitas formas de aprender.

● Em algumas escolas de educação especial, existe o incentivo para que as pessoas com necessidades especiais e intelectuais tenham uma vida “normal”, mas não existe acompanhamento fora da escola ou conhecimento do contexto social do aluno. Os profissionais estão errando ao fazer esse incentivo, se não têm condições para acompanhar o sujeito? Qual deveria ser então a posição desses profissionais diante da pessoa com necessidades especiais?

Resposta: Vejamos: Incentivar a pessoa com deficiência a ter uma vida social é positivo desde que saibamos as limitações e necessidades da pessoa e conheçamos um pouco do contexto familiar e dos espaços urbanos disponíveis na comunidade em que o aluno reside. Por exemplo: se uma professora está ensinando a habilidade de contar números, ela poderia incentivar o seu aluno a ir ao mercado acompanhando de um familiar para aprender a fazer compras, ou ainda poderia incentivar ao aluno ir à sorveteria e pagar o seu sorvete (desde que seja avaliado: indo sozinho, ele tem orientação espacial para saber percorrer o caminho e voltar para casa? Sabe atravessar ruas atentando para o trânsito?, entre outras). Então, acredito  que a independência e autonomia do aluno deve ser incentivada sim, mas este incentivo deve ser feito de modo planejado, junto com a família, e sendo consideradas as necessidades do indivíduo. Do modo contrário, incentivar um aluno com deficiência o “desbravamento do mundo” sem considerar os riscos aos quais o aluno pode ser exposto e a sua ausência de habilidades para lidar com problemas, não acho que seja uma conduta educativa eficaz para o bom desenvolvimento do aprendiz.

● Visando as questões anteriores, qual é o maior desafio encontrado hoje na educação especial e na inserção de pessoas com necessidades especiais na sociedade?

Resposta: Temos muitos desafios. Dentre eles, posso citar: a efetivação das políticas públicas, o cumprimento das leis que asseguram o exercício de direitos, a capacitação de profissionais, o apoio institucional às famílias. Mas, existe um desafio, em especial que eu acredito ter um papel fundamental no desenrolar da inclusão social: a formação e uma articulação da rede intersetorial de cuidados à pessoa com deficiência.

Hélida, agradecemos imensamente pelas respostas. Obrigada e até a próxima!

Gabriela Castro – Estudante de Psicologia

Entrevista – Hélida Luanna fala sobre sobre inclusão de pessoas com dificuldades intelectuais na sociedade
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