“Timidez” é uma das queixas mais frequentes na Clínica de Psicologia. Ela é caracterizada por um temor intenso do indivíduo à avaliação negativa e rejeição por parte dos demais, em consequência de ser visto agindo de forma socialmente inadequada, humilhante, embaraçosa ou simplesmente por demonstrar ansiedade.

O tímido tende a evitar qualquer situação em que precise se expor ou corra o risco de ser julgado. Quando não consegue fazê-lo, enfrenta uma série de reações fisiológicas desagradáveis, dentre as quais se destacam a sudorese, taquicardia (coração dispara), respiração ofegante, dores de cabeça, tonturas, dormência nos músculos, o “branco” e gagueira. Muitos sofrem ainda com uma espécie de invasão de pensamentos auto-recriminatórios, como “eu não deveria ter dito isso“, “será que estou sendo chato (a)?“, “acho que não estou bem vestido (a)“, entre outros assemelhados. Nos casos mais graves, a pessoa chega a abandonar o emprego, a escola e os amigos para se esquivar desse tipo de situação, caracterizando o que a Organização Mundial de Saúde chama de Fobia Social ou Transtorno de Ansiedade Social.


Não existe uma diferenciação clara entre Fobia Social e Timidez. Alguns pesquisadores da área consideram que ambas fazem parte de um continuum, no qual a timidez corresponde a um nível de comprometimento menor do que aquele observado na Fobia Social. Para fins didáticos, o texto irá se referir às duas categorias como “Ansiedade Social”.
Interessante notar que, na grande maioria dos casos, a avaliação negativa temida pelos indivíduos socialmente ansiosos não ocorre de fato. Um estudo realizado por Christensen (2003), com o objetivo de verificar empiricamente a questão, demonstrou que eles é que se percebem como menos simpáticos, mais calados, mais distantes, mais nervosos e menos inteligentes do que realmente são, tendo como referência a forma como outras pessoas os percebem. 
Para chegar a esta conclusão a pesquisadora colocou indivíduos socialmente ansiosos e indivíduos socialmente não ansiosos uma situação semi-estruturada, na qual foram orientados a agir como se estivessem conhecendo naquele momento uma outra pessoa, representada por um auxiliar de pesquisa previamente treinado. Todos o participantes foram orientados a avaliar a si próprios e a forma como acreditavam estar sendo percebidos pelos auxiliares com base em uma série ampla de característica de personalidade, como  “sociável”, “simpático”, “nervoso” e algumas outras, em uma escala de 1 (nada) e 9 (muito). Os auxiliares de pesquisa também avaliaram os participantes, utilizando as mesmas categorias.
Além da distorção cognitiva acima descrita, os dados demonstraram que mesmo quando o interlocutor percebe algum grau de desconforto no indivíduo, ele não faz uma avaliação negativa do mesmo em consequência disso. Em outras palavras, as pessoas são de fato capazes de perceber a ansiedade no outro, mas não o julgam inferior, menos sociável, mais inconveniente ou menos inteligente por isso, ainda que ele de fato possua um repertório de habilidades de interação social mais pobre do que o demonstrado pela média populacional (Alden e Mellings, 2004). O maior problema, portanto, não é exatamente o déficit de Habilidades Interpessoais. 

Em uma revisão de 16 estudos sobre o tema, Angélico, Crippa e Loureiro (2006) verificaram que a maioria dos estudos na área indicam que a maior barreira enfrentada por indivíduos socialmente ansiosos é a ansiedade em si. Conforme constataram, ela é capaz de afetar negativamente o desempenho social e as habilidades de comunicação destas pessoas, caracterizando o que a Psicologia chama de “supressão condicionada”. (Regis Neto, Banaco, Borges e Zamignani, 2011). Nestes casos, os indivíduos sabem como agir e são capazes de se comportar daquela forma em algumas situações, mas quando o risco de avaliação ou reprovação social é maior, eles “travam” ou “tem um branco”, como se diz popularmente. 
Para concluir, é importante frisar que existem sim casos nos quais os ansiosos sociais demonstram um repertório de habilidades de interação limitado, quando comparados a não ansiosos socialmente (Alden e Mellings, 2004). Porém, não parecem ser a maioria. Angélico, Crippa e Loureiro (2006) argumentam que é preciso desenvolver novos estudos sobre o tema para se chegar a um resultado conclusivo quanto ao tipo de dificuldade mais comum. Na clínica, no entanto, esse dado não importa. 
O atendimento clínico em Psicologia é pautado não em um dado estatístico, mas em uma análise cuidadosa e detalhada de cada indivíduo que procura o serviço. Feita a análise, ai sim são buscados estudos que apontem qual o tipo de tratamento obtém melhores resultados com cada caso. Neste sentido, as terapêuticas mais indicadas são as Analítico-Comportamentais e Cognitivo-Comportamentais, mundialmente conhecidas pela forte sustentação em evidências e pela frequente menção por órgãos oficiais, como a Organização Mundial de Saúde, Associação Americana de Psiquiatria, ONU e alguns governos como as mais efetivas modalidades terapêuticas.
REFERÊNCIAS

Alden, L. E. & Mellings, T. M. B. (2004). Generalized social phobia and social judgments: The salience of self- and partnerinformation. Journal of Anxiety Disorders, 18, 143-157.

Angélico, A. P., Crippa, J. A. S., & Loureiro, S. R. (2006, jan./ jun.). Fobia social e habilidades sociais: Uma revisão da literatura. Interação em Psicologia (Curitiba), 10(1),113-125.

American Psychiatric Association. (1994). DSM IV – Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais. (4ª ed.). Washington DC.

Bögels, S. M., Rijsemus, W. & De Jong, P. J. (2002). Self-focused attention and social anxiety: The effects of experimentally heightened self-awareness on fear, blushing, cognitions, and social skills. Cognitive Therapy & Research, 26(4), 461-472.

Christensen, P. N., Stein, M. B. & Means-Christensen, A. (2003). Social anxiety and interpersonal perception: A social relations  model analysis. Behaviour Research and Therapy, 41, 1355- 1371.

Regis Neto, Denigés; Banaco, Roberto Alves; Borges, Nicodemos Batista; Zamignani, Denis Roberto. Supressão condicionada: Um modelo experimental para o estudo da ansiedade. Revista Perspectivas 2011 vol. 02 n ° 01 pp. 5-20

Ensaio sobre a Ansiedade e as Dificuldades de Interação Social