Autora: Amona Priscila Lima
E-mail: amona_priscila@yahoo.com.br

Provavelmente você conhece ou já ouviu falar sobre alguém que poderia ser compreendido como dependente afetivo ou co-dependente em uma relação amorosa. Então, podemos definir como dependência afetiva quando um dos parceiros em uma relação abdica de todo o resto de sua vida em função de reforçadores advindos do parceiro. Para o dependente, o outro é o sentido de sua existência. Podemos dizer que na dependência afetiva o que mantém o relacionamento não é o amor, mas sim a dificuldade de se renunciar a ele (Riso, 2012). De acordo com o DSM – IV- TR “O Transtorno de personalidade dependente é um padrão de comportamento submisso e aderente, relacionado a uma necessidade excessiva de proteção e cuidados”. De acordo com esse conceito, são estabelecidos alguns critérios para o diagnóstico desse transtorno sendo observadas características como incapacidade total de realizar tarefas sozinho, tomar decisões, medo de separação, submissão, sentimento de inferioridade, sentimento de pouco merecimento, e etc.

Esses relacionamentos podem estar ligados a modelos e a regras imprecisas que possam ter permeado a aprendizagem acerca de relacionamentos (Carvalho & Medeiros, 2005). Um exemplo que ilustra tal aprendizagem é uma mulher que cresce vendo a mãe vivendo em função do pai. Diante de um modelo como esse, várias regras podem surgir, como: “seu amor me basta”, “prefiro estar com você a fazer qualquer outra coisa”, “quem ama, prefere estar com a pessoa amada a fazer qualquer outra coisa” e varias outras regras. Podemos então dizer que várias características apresentadas do dependente afetivo estão relacionadas à maneira como a pessoa aprendeu a lidar consigo mesma e com as relações que o cercam. Muitas vezes o dependente está sob o controle de que amar é se comportar de determinada maneira. E para demonstrar que ama como considera o mais adequado, acaba se comportando inadequadamente, amando exageradamente, fazendo muito pelo outro, abrindo mão da sua própria vida. Geralmente nessas relações o trabalho, o estudo, os amigos, hobbies e outros, perdem o valor reforçador em função do altíssimo valor atribuído à relação e ao parceiro.

O amor é um assunto complexo e envolvido por uma série de regras. Na verdade, na sociedade em que vivemos está sob a influência de novelas, seriados, filmes e a mídia no geral, em que é apresentado e reforçado o modelo de amor romântico. O amor excessivo não causa tanto impacto, mas a falta de amor sim. Por isso, observa-se uma grande valorização do amar de mais. De acordo com Riso (2012) convivemos com a dependência afetiva a nossa volta, aceitando, permitindo e patrocinando cada vez mais essa condição que foi estabelecida nas relações dentro do contexto em que vivemos. Do ponto de vista social podemos dizer que somos parte e cúmplice dos desmandos do amor. Entretanto, a dependência afetiva, do ponto de vista do analista do comportamento, pode variar de acordo com o contexto de cada um, pois cada caso é um caso e é preciso entender os estímulos que o individuo dependente está sob o controle e quais as consequências que podem estar mantendo tal comportamento.

A dependência afetiva é considerada vicio tal como a dependência química, mas neste caso, a droga é considerada qualquer pessoa que estimula e mantém o vício (Souza, 2013). Esta dependência pode acontecer entre pais e filhos, namorados, cônjuges e até amigos. Na maioria das vezes, numa relação de dependência, os reforçadores não estão em condições de igualdade. Um se anula em função do outro e ainda exige que o outro se comporte da mesma maneira e com a mesma proporção de empenho. A escolha de estar numa relação que provê poucos reforçadores está relacionada a história de aprendizagem, ou seja, como a pessoa aprendeu a discriminar e entender as relações amorosas. Muitas vezes na dependência, a pessoa discrimina que para ter reforçadores ou para estar feliz deve sempre estar ao lado de outra pessoa, condicionando a sua felicidade a alguém. O ideal é não atribuir ou dar tanta importância à vida amorosa como fator determinante para ser feliz e ter qualidade de vida. É necessário que o indivíduo e o casal tenham acesso a vários reforçadores, mantendo assim, uma variabilidade comportamental (Carvalho & Medeiros, 2005).

Esse padrão de dependência pode acometer tanto os homens quanto as mulheres, mas é encontrado em sua maioria nas mulheres. Existe por traz dessa demanda um fator social, histórico e talvez de gênero, visto que a mulher torna-se mais facilmente dependente do amor e do homem. Para a mulher, ter uma relação a dois é uma das prioridades na vida (Sophia, 2007). Quando uma relação amorosa é mantida por um processo de dependência existe um sofrimento para o casal. O dependente, assim como o parceiro, sofre as consequências de um relacionamento conflituoso e desgastante. É claro que é mantido por que existe a consequência reforçadora que para o dependente poderia ser a atenção ou o fato de evitar “o estar só”, o que em alguns casos poderia ser uma regra.

É percebida nas bibliografias sobre o tema uma característica comum e de grande importância na origem dessa dependência: a forma como essas pessoas caracterizadas como dependentes foram educadas na infância. Será que os pais ou os cuidadores favoreceram o desenvolvimento de adultos seguros e autoconfiantes? Será que na tentativa de acertar supervalorizavam ou protegeram demais seus filhos ao ponto de as transformarem em crianças inseguras e insensíveis aos seus erros e sem limites? Então, todas essas questões precisam ser abordadas e avaliadas quando percebemos essa demanda. É primordial conhecer e entender a história de aprendizagem da pessoa, a forma como aprendeu a se relacionar em sua vida afetiva. É necessário também identificar em que circunstancias esse padrão de dependência foi gerado para então o dependente entender que é preciso e possível agir diferente para obter uma relação mais saudável e um maior acesso a outros reforçadores.

Os pais podem ajudar a mudar esse quadro ao demostrarem a seus filhos desde a infância o quanto são amados e o quanto acreditam e confiam nos seus comportamentos. Assim é possível que no futuro, sejam adultos confiantes, com uma boa autoestima e pouco dependente da aprovação dos outros, podendo fazer o que pensam ser adequado. E preciso fazer com que a criança se sinta valorizada e amada. À medida que a criança interage com o ambiente a referência individual de si é construída (Silva & Marinho, 2003). No caso, sendo um ambiente de amor e carinho a probabilidade desse referencial ser positivo é grande e isso este diretamente relacionado ao modelo que está sendo ensinado.

A busca por ajuda, no caso pela psicoterapia, acontece na maioria das vezes, quando o relacionamento acaba no momento em que o dependente não aguenta a condição de estar longe do outro. Portanto, é comum não haver uma conscientização sobre sua própria “patologia”. O primeiro passo para diminuir essa dependência é iniciar um processo terapêutico para entender o quanto se manter numa relação de dependência gera consequências negativas e aversivas. Ter autoconhecimento, que é um dos principais objetivos no processo terapêutico, favorece que o individuo se entenda, se conheça, discrimine o porquê de se manter num relacionamento que traz poucas contingências reforçadoras gerando ainda insatisfação a um ou ao par. Este seria um dos primeiros passos para a “cura” da dependência afetiva. É possível amar e se dedicar a outra pessoa sem que isso traga algum tipo de sofrimento. É necessário que o indivíduo, através do autoconhecimento, aprenda a substituir eventos aversivos por outros que sejam mais reforçadores para si e para a relação, com menor chance de haver consequências negativas. É possível construir um caminho independente! Procurar ajuda e tratamento psicoterápico individual ou de grupo é fundamental para essa conquista.
Sugestões de Leitura

Carvalho, M. C. G. B. & Medeiros, C. A. (2005). Determinantes do seguimento da Regra: “antes mal acompanhado do que só”. Universitas: Ciências da Saúde, 3, 47-64.

Riso, W. (2013). Amar ou depender?: Como superar a dependência afetiva e fazer do amor uma experiência plena e saudável. Porto Alegre, RS: L&M

Silva, A. I. & Marinho, I. G. (2003). Auto estima nas relações afetivas . Universitas Ciências da Saúde – vol.01 n.02 – pp.229-237

Sophia, C. E., Tavares, H. & Zilberman, L. (2007). Amor patológico: um novo transtorno psiquiátrico v.2 n.1 São Paulo

Skinner, B. F. (2007). Ciência e Comportamento Humano (J. C. Todorov, & R. Azzi, Trads.11ª ed.). São Paulo: Martins fontes (Obra original publicada em 1953).

Souza, A. P. M.(2013). Influencia de grupos psicossociais sobre os níveis de ansiedade, depressão, desesperança e estresse de mulheres adultas em situação de dependência afetiva e violência conjugal. Universidade Federal do Pará. Belém, PA

Dependência Afetiva: Amar pode ser fácil se soubermos como.

2 ideias sobre “Dependência Afetiva: Amar pode ser fácil se soubermos como.

  • julho 8, 2014 em 1:23 am
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    Ótimo texto! Gostaria de saber mais sobre outros problemas que podem emergir junto com a Dependência Afetiva. Por exemplo, é possível que o dependente desencadeie algum grau elevado de ansiedade e ou depressão?

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